Trump, Jerusalém e o Juízo Final

12 de Dezembro de 2017
Por Henry Galsky Se politicamente ainda está difícil encaixar a nova posição americana sobre Jerusalém, sob o ponto de vista religioso a situação está muito clara. Donald Trump não é exatamente uma figura das mais religiosas, mas sua base de apoio – a maioria esmagadora desta base – está entre as mais militantes do cristianismo de toda a história política americana. E, aos mais incautos, é preciso deixar claro: o “presente” da declaração sobre Jerusalém tem muito menos a ver com os judeus do que com a militância doméstica de Trump: os cristãos evangélicos.

Antes desta exposição, é preciso recordar alguns conceitos. O ponto principal da disputa se localiza no Monte do Templo (nome judaico)/ Nobre Santuário (nome islâmico). Neste lugar muito caro aos judeus, estava localizado o Grande Templo judaico destruído pelos romanos no ano de 70 da Era Comum. É justamente neste mesmo ponto onde estão hoje o Domo da Rocha e o Complexo da Mesquita de al-Aqsa, marcos religiosos islâmicos.

Como escrevi anteriormente, lideranças islâmicas alimentam teorias de conspiração de que Israel pretende alterar o status quo de Jerusalém, colocando o Monte do Templo/Nobre Santuário no centro permanente das discussões. Ou seja, existe uma narrativa frequente entre a população islâmica de todo o mundo que acredita em diversas teorias quanto às intenções dos israelenses de destruir o complexo da Mesquita de al-Aqsa e então reconstruir o Grande Templo judaico.

Desde a Guerra dos Seis Dias, que culminou com a vitória israelense e a reunificação das porções ocidental e oriental da cidade por Israel, os sucessivos governos do país caminham sobre uma linha de permanente tensão de forma a deixar claro que não pretendem reconstruir o Grande Templo judaico.

E aí retornamos a Donald Trump e a seu anúncio sobre Jerusalém. Com baixos índices de popularidade e seguindo como alvo de investigações em função dos contatos pouco claros entre membros da cúpula de sua campanha e governo com a Rússia, o presidente americano resolveu fazer um agrado a seus eleitores. E não me refiro aos judeus, que regularmente costumam votar em candidatos democratas nos EUA (a estatística mostra que este é o comportamento eleitoral histórico de cerca de 80% dos membros da comunidade judaica americana).

Para parte significativa da comunidade evangélica americana, há uma interpretação sobre o Apocalipse, que também é chamado de “O Livro da Revelação”. De acordo com esta teoria muito popular entre os cristãos evangélicos americanos e suas lideranças, é fundamental que os judeus procedam com a reconstrução do Grande Templo judaico de Jerusalém, na medida em que este projeto causaria um conflito internacional de grandes proporções - esta guerra poderia, portanto, abrir o caminho ao fim dos dias, ao Juízo Final previsto pelo Apocalipse e ao retorno de Jesus.

Como menciona a jornalista do Haaretz Alisson Kaplan Sommer, Trump obteve percentual de 81% de votos entre eleitores evangélicos, índice superior inclusive ao recebido pelo ex-presidente George W. Bush. Para parte significativa deste eleitorado, Trump é o instrumento político que está conseguindo viabilizar os planos divinos. Portanto, é improvável imaginar algum tipo de estratégia de política externa mais elaborada neste momento.

Aliás, Trump certamente é menos religioso do que empresário/político. E tem muito interesse em obter vitórias no Oriente Médio superiores a seu antecessor Barack Obama. No entanto, está evidente que sua trajetória política é marcada por variações pouco convencionais, na medida em que o presidente deixa claro que gosta de ser encarado como alguém que não se submete a demarcações históricas praticadas por seus antecessores. Jerusalém era um desses tabus que Trump pôs abaixo. Suas razões podem estar relacionadas ao caráter religioso de sua base de sustentação e aos limites que faz questão de subverter.